terça-feira, 26 de agosto de 2008

Brasil: um país de ingratos


Lendo o texto do pai de um amigo meu em seu blog, indentifiquei-me no pensamento da mensagem trazida por ele e resolvi escrever sobre o assunto do momento: Olimpíadas de Pequim. Na verdade, é mais específico. Queria falar do "fracasso" do Brasil que todos andam comentando e debochando. Sinceramente, quando os jogos começaram, também esperava que o Brasil ganhasse mais do que três medalhas de ouro. Sim, a expectativa era grande. Na Olimpíada marcada pelas obras faraônicas e pela comoção de uma nação cerrada para os olhares estrangeiros até tempos recentes, esperávamos muito de nossos atletas. Daí comecei a me perguntar: "por que estamos esperando tanto"?

Metaforizando, penso em nós, o povo brasileiro, como se fôssemos aquela vizinha chata do primeiro andar, aquela a qual é impossível sair do prédio sem que ela apareça para ench... puxar conversa quando menos queremos. Já os atletas, imagino como aquele vizinho do apartamento de cima, um pobre adolescente vestibulando, que ralou estudando o ano inteiro para passar em Medicina na Federal. A vizinha chata nunca telefonou para ele que não fosse pelo motivo de mandar o guri abaixar aquela música infernal, mesmo que ele estivesse ouvindo Roberto Carlos no sábado à tarde. Ela nunca parou para falar com ele, a não ser quando ele estava atrasado para a aula, afinal já era intolerável a situação incômoda da vizinha do 83 ter um cachorro, imaginem só. Na verdade, ela nunca se importou com ele, lembrou dele, nada! EXCETO... na semana que antecede o vestibular, claro! O adolescente anda numa mescla de nervosismo, logaritmos, hormônios explodindo de seu corpo, respiração celular, revolução francesa, querendo que aquela PORRA DAQUELA MERDA DO VESTIBULAR PASSE LOGO DE UMA VEZ (mencionei o stress? Esses vestibulandos se estressam). Então, ele saindo para uma das últimas aulas antes da hora da verdade, E... adivinhem quem aparece? ISSO! AQUELA MALA DA VIZINHA! E ela não poderia dizer nada melhor: "Viu!? Tem vestibular semana que vem, né? To sabendo que tu vai fazer, sei que tu vai passar, vai lá!” SÉRIO??? TEM VESTIBULAR SEMANA QUE VEM?? Que bom que tu me avisou, ou eu ia esquecer! Afinal, NEM TÔ PRA ESSA MERDA! Era tudo mentira essa história de que eu ficava socado no meu quarto estudando 4 horas todo santo dia, depois da minha aula. Porque na verdade eu ficava tentando aprender Voodoo, exorcismo ou QUALQUER MERDA QUE FIZESSE A SENHORA MORRER OU SUMIR DA MINHA VIDA, CARALH...!!

Pois é, esses vestibulandos são estressados. A pressão é complicada, mas mesmo depois do “agradável” encontro e da vontade de gritar tudo que eu escrevi ali em cima, eles olham e dizem: “obrigado”. Mesmo que não seja sincero, eles agradecem ainda. Somos nós, essa maldita vizinha. Desde quando, antes das Olimpíadas, Pan-Americano, nos importamos com as jogadoras do time feminino de futebol? Responda rápido: em que time a melhor jogadora do mundo, Marta, joga? Difícil, né. Onde é que o César Cielo treina mesmo? O nome Jadel Gregório te lembra algo? Tá complicado. Vamos facilitar. Nenhum de nós se preocupou com nenhum desses atletas antes da Olimpíada. Esperamos algo deles apenas quando eles apareceram na tela da Rede Globo com o insuportável Galvão Bueno dizendo o tempo todo pro atleta (como se ele ouvisse) “é o Brasil inteiro com você, vamos lá!” Desde quando o Brasil esteve com eles? É fácil falar da falta de apoio e de investimento. Até parece que vai cair do céu, como o povo anda pensando. Será que tem a ver com o fato de irmos até o estádio ver um simples treino de nossos times de futebol, ou de lermos a semana inteira sobre quem vai começar jogando ou não no próximo Grenal? E o atletismo, a natação? Nem damos bola. Não quero vir aqui acusar ninguém de gostar de futebol, eu também sou um aficionado. Mas acho que deveríamos todos dar essa audiência, esse olhar a mais para os outros esportes.

Não sabemos participar de nada, nem dar um apoio sequer. No Brasil não se aprende isso. Aprendemos a ir pra escola para cuidarmos de nós mesmos e fazer o nosso. Expor-se só vale a pena se isso trouxer fama e reconhecimento, críticas e desafios estão fora de questão. Se eu fizesse uma pesquisa de campo e perguntasse aos brasileiros nas ruas se eles sabem o nome de jogadores da Portuguesa, creio que até se sairiam bem. Agora, se eu perguntar aos mesmos o nome de judocas brazucas que foram a Pequim, hummm... complicou. Futebol traz reconhecimento e fama em grande escala, e nisso vale a pena investir, porque terá retorno. Não é difícil pensar como um empresário, como um investidor ou como a mídia.

Enquanto vários países se organizam, conscientizam sobre a questão do esporte na vida do indivíduo e da sociedade, trazem crianças e mais crianças para se tornarem atletas de todas as modalidades, esperamos, em nossa nação, que apareça um talento provindo do berço, uma exceção à regra que o pai tem dinheiro o suficiente para patrociná-lo e este se tornar um atleta de alto nível. Chegamos a Olimpíada com um cara ali que salta bem, uma outra ali que dá uns passinhos bonitos na ginástica, o fulano acolá que corre bastante. Uma meia dúzia de talentos que não teve nem concorrentes a sua altura nos eventos anteriores agora enfrentam equipes de vários países muito bem preparadas. E nós QUEREMOS medalhas destes, pois precisamos ver o Brasil afirmar-se em algo, nem que seja o esporte (já que no dia-a-dia tapamos os olhos pro resto).

Agora pensem comigo: onde há mais chances de se achar um Michael Phelps? No país que traz centenas de milhares de crianças e adolescentes para as piscinas, estimula a participação delas e a competitividade dentro de um espírito esportivo? Ou no outro, que espera a cada ano SURGIR um ser talentoso, dedicado, que superou a falta de incentivo geral, deu duro, treinou sem concorrência de seu nível e chega lá sozinho? Penso eu, simplesmente, que se eu criar 1000 nadadores profissionais, a chance de eu ter atletas Olímpicos é maior do que se eu criar 50. Penso também que se eu mantiver o bom nível do primeiro caso, incentivá-los a continuar e prepará-los, ajudando enquanto governo, consigo mandar pelo menos 40 atletas de minha delegação para a Olimpíada. No segundo caso, sem nenhum dos elementos anteriores, com sorte levo uns 6, sendo uns 2 ou 3 de nível relativamente alto. Aula básica de probabilidade: baseando-se nas informações acima, quem tem mais chance de levar várias medalhas, criar ídolos e conquistar o lugar mais alto do pódio. Fácil, não?

Vemos alguém chegar numa Olimpíada sem nem saber o nome da pessoa, mas cremos piamente que temos ali uma chance clara de medalha. Isso enquanto esperamos a Seleção entrar em campo. Ao mesmo tempo, dois países esperam com veemência o jogo de Pólo Aquático e seus grandes atletas, torcendo para que dê tempo de poder ver ainda o Handebol e depois a final dos Saltos Ornamentais, afinal, são todos atletas que aqueles cidadão sabem que merecem seu apoio. E o povo brasileiro, olhando e dizendo “olha lá, que vergonha esse cara... não ganha nada!” ESSE CARA! Porque não sabem nem o nome do infeliz. Não sabemos nem nos organizar como povo, como uma gigantesca equipe, como coletividade, como pátria, como Estado. Tudo aqui é o heroísmo individual (como falou o Jabor). Ninguém nunca fez nada por ninguém e agora o povo se acha no direito de esperar que façam de tudo por ele. E olha que nem falei de coisas como corrupção, educação precária ou alienação geral, coisas que o povo sabe mas "deixa pra lá" nesse texto.

Parabéns equipe feminina de vôlei é uma vitória de VOCÊS, da EQUIPE que vocês são! Parabéns Maurren! O ouro é TEU E SOMENTE TEU! Parabéns César pela TUA SUPERAÇÃO e pela TUA vitória! Aos outros medalhistas, os mais sinceros parabéns por terem chegado tão longe e trazerem esta lembrança para casa. Aos outros que participaram e não ganharam medalhas, parabéns por serem vencedores, por viajarem e representarem um país, mesmo que ele não dê nenhum crédito ou reconhecimento a vocês. Quanto ao deboche do povo e a frases como “mas que fiasco esse país de m...”, penso nos atletas que carregaram a bandeira com orgulho. Não deveriam tê-lo feito. Aí, volto lá atrás e lembro da vizinha mala. E fico me questionando o que se passa na cabeça do guri que volta pra casa e encontra-a perguntando: “Passou?”

2 comentários:

Girley Brazileiro disse...

Parabéns Mucão,
Bem Vindo ao mundo blogueiro. Isto é uma mania. Cuidado.
Vc começou bem. Com um tema do momento e que suscita debates.
Fico satisfeito por haver contribuido, como vc fala no inicio da sua postagem.
Girley Brazileiro (pai de Tico)

Dana disse...

Muito bom!!

Concordo plenamente com o tudo que tu disse. Se pensarmos no apoio que é dado a todas modalidades esportivas aqui no nosso país, 3 medalhas de ouro é lucro, sendo que daqui há 2 meses no máximo, a maioria das pessoas não vai lembrar o nome dos atletas que estavam nas Olimpíadas, e nem de quais trouxeram medalhas, ou seja, é tão mais fácil só criticar né?

ESPORTE É VIDA!!!

bjoo

bjoooo