terça-feira, 10 de janeiro de 2012

Novo, mas nem tanto - Parte III: por que reativar o blog?



Eu vou direto ao ponto: o Facebook está cercado de idiotas. Sem arrogância. Explico: do grego, idiótes é o homem privado, preocupado tão somente com a esfera que somente lhe diz respeito, em oposição ao homem político, ativo na sociedade. E procuro diferenciá-los do reducionista adjetivo que todos usam, o “egoísta”, porque é, de fato, diferente.

Hoje com uma lista de mais de 1400 contatos – amigos, de verdade, são um número menor, alguns dos quais sequer estão na rede social –, fica muito fácil interagir com MUITA gente. O que, se por um lado é bom, por outro é CAÓTICO, porque, automaticamente, tento expor minhas convicções da maneira mais cuidadosa possível para não ofender ninguém (o que não é tarefa fácil, para não dizer impossível). Desde sempre, gosto de discutir assuntos como política, religião, direito, sexo, relacionamentos, futebol e outros esportes (não necessariamente nessa ordem), bem como qualquer coisa que certamente cria intriga e polêmica. Não me interessa saber se alguém está tomando picolé de abacaxi na beira da piscina, se está em um lugar em que certamente deveria estar aproveitando o momento ao invés de compartilhar na internet, se o seu gato é fofo e bonitinho, se você vai na casa do seu primo jogar vídeo-game ou se você se molhou na chuva. Não mesmo! E eu tento ao máximo não cair nesse vício de querer compartilhar meu cotidiano nas redes sociais – não porque não se pode falar do cotidiano, mas porque isso se torna BANAL, e banalizar o dia a dia é banalizar a vida.

Em meio a esse cenário não muito feliz, comecei a me dar conta do quão chato eu podia estar sendo. Simplesmente porque pessoas que estão ali para falar de suas vidas não estão lá muito a fim de ler textos longos sobre algo que não lhes diz DIRETAMENTE respeito. Sempre tem aqueles que vêm e clicam em “curtir” ou fazem um comentário de apoio, é verdade. Mas comecei a refletir e vi que não tenho tido paciência para debater nem os assuntos que gosto. Porque, além de começar a me achar chato, as áreas que mais gosto de estudar e debater (Direito Penal, Direitos Fundamentais, Ciência Política, Democracia e Constituição, entre outras) também são temas que, de tempo em tempo, são PAUTADOS pelo senso comum. Não digo que as pessoas que não estudam direito ou outras ciências humanas não possam ter uma opinião, mas ficar o dia em cima de livros críticos ao assunto, de processos, de estudos de caso, de experiências que busquem vivenciar tudo aquilo que se aprende, e ter que enfrentar o senso comum é FODA - com o perdão dos mais castos, mas quem me conhece sabe que falo muitos palavrões.

E me irrito mais ainda quando vem alguém com aqueles VELHOS CHAVÕES ESTÚPIDOS – perdão pelo desabafo – como “ah, isso é bonito, mas é só na teoria, na prática...”, ou “outro dia vi UM caso X, que contraria TUDO isso que tu tá dizendo e…”. E o melhor é que quem vem com essas PROFUNDAS CRÍTICAS [/ironia] são pessoas que vêm discutir algo sobre o qual jamais leram um livro, trabalharam em um caso ou, ainda, vivenciaram qualquer coisa a respeito dele. E, deixe-me continuar meu desafogo, digo que é muito FÁCIL “formar opinião” ouvindo o que todo mundo ouve, vendo o que todo mundo vê e lendo o que todo mundo lê (leia-se, as redes midiáticos toscas e simplórias que infestam nosso dia a dia). Aliás, as pessoas que considero mais inteligentes raramente formam opinião de pronto sobre qualquer assunto mais amplo, procurando sempre justificar porque pensam desta ou daquela maneira com argumentos racionais e científicos, abordando-os com sensibilidade, não tomando suas ideias como verdades absolutas. Felizmente existem ALGUMAS pessoas assim.

Não me importo nem um pouco que discordem de mim. Não mesmo! Até porque se eu prego a tolerância ao diferente, tenho que ser o primeiro a tolerar aqueles que pensam diferente de mim. Sou ateu, mas convivo tranquilamente com pessoas religiosas. Sou gremista, e tenho amigos colorados com os quais gosto muito de falar sobre futebol. Sou de esquerda, liberal, petista, chamem-me do que quiser, mas falo de política com qualquer pessoa. Só o que eu não tolero – e nem poderia tolerar, por coerência – é a intolerância. E confesso que tenho sérios problemas com a mãe da intolerância: a ignorância.

Aí comecei a quase parar de escrever no Facebook. Porque, como eu já disse, não acho lá muito legal ficar falando sobre minha janta ou afins para os outros. E sobre os assuntos que considero importante as pessoas conversarem, eu já não aguentava mais, em certo ponto, voltar sempre à estaca zero. Desconstruir um argumento inteligente é um desafio cativante, engrandece sua mente, te obriga a ler e pensar sobre o ponto de vista de outra pessoa, pode te fazer reafirmar teu ponto de vista e melhorar teus argumentos e, por que não, pode até te fazer mudar de ideia – o que pode ser muito saudável, além de demonstrar uma mente aberta. Agora, ter que voltar à ESTACA ZERO cada vez que alguém aborda uma notícia, como, por exemplo, um crime, e ter que enfrentar argumentos cansativamente repetidos do nível do DATENA é para CHORAR AS PITANGAS E ABANDONAR O BARCO. E aí vem os chavões. E aí vem alguém que não me conhece, não sabe o que eu faço nem o que fiz da vida, nem ao que tenho me dedicado a vida inteira para querer me falar o que é REALIDADE.

Com todo respeito que cada um merece, mas cada pessoa que vem me falar sobre “o que é a realidade” eu só consigo enxergá-las com um rótulo denominado “sou preguiçoso demais para estudar e prefiro ter opiniões fixas que vou usar como regra geral a partir do que eu vi e do que me falaram pra pensar a respeito disso”. Desculpa, mas, para mim, ao menos, pessoas inteligentes não usam termos como “A realidade”, “A verdade”, “O certo” e “O errado”. E não quero cair em um relativismo moral, mas tão somente combater uma moral única pautada por valores materialistas e carolas de uma sociedade consumista e preconceituosa.

Com isso tudo, fui perdendo a vontade de discutir. Pelo menos pelo Facebook e Twitter. Porque, além do que já falei, veio também uma autocrítica: não estaria eu me tornando algo que tanto critico, alguém que enfrenta tudo e todos por trás de uma tela de computador? Não queria me tornar a pessoa sobre quem O Rappa falava na música “Me deixa”, quando dizia “hoje eu enfrento o mundo sem sair da minha casa". Mas ao mesmo tempo pensava que escrever oxigena o cérebro. Colocar as ideias no papel ajuda, tanto quanto a fala, a organizá-las. E escrever aquilo que penso me ajuda a preservar a minha própria memória, de modo que posso tentar evitar ser repetitivo.

Por isso decidi retomar esse blog. E mudar ele de nome também.
Mas como já escrevi demais, acho que isso merece um post próprio.
(continua...)

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